quinta-feira, 19 de abril de 2007

A dignidade de um homem

Coimbra, 19 de Abril de 2007

Hoje jantei na cozinha económica (para quem não sabe, pertence à congregação das Irmãs criaditas dos pobres e alimenta centenas de pessoas por dia). Sentei-me ao lado de um senhor de meia-idade cujos olhos transpareciam toda a infelicidade do mundo. A expressão envelhecida daquele rosto era um esboço de mágoa e dó; apresentei-me ao senhor Idálio. Ele tem quarenta e sete anos, perdeu o emprego que lhe põe o pão na mesa há quase 30 anos e luta agora com outros mais jovens e preparados por uma nova posição.

Já sabemos que a experiência não interessa a ninguém hoje em dia, as empresas querem jovens de vinte anos, trilingues, sem responsabilidades familiares e com aspecto de quem não vai envelhecer nem morrer nunca. E por isso, imagino o duro que é sair de manhã, com a melhor gravata e a camisa passada pela mulher, pensando nela e nos filhos, a caminho de mais uma maldita entrevista, com pouco mais que uma réstia de esperança no peito. Imagino as tardes vazias no sofá em casa, as lágrimas, a vergonha de estar com os amigos, as palavras que não saem para explicar aos filhos que o olham em silêncio como foi possível terem-no deixado nesta situação.

É pelo menos confortante saber que uma pessoa que enfrente este tormento tenha, além da silenciosa companhia da mulher, o apoio dos filhos. O abraço da mulher no leito conjugal, no escuro, permite que toda a humilhação seja compartida e suportável. Mas o Sr. Idálio fala-me do apoio incondicional dos filhos, dos seus primos que, apesar de jovens, sabem e lhe dizem que ele é o melhor, a melhor pessoa, o homem mais decente e trabalhador que eles conheceram nas suas curtas vidas. Que é o melhor pai e que sempre será, independentemente do trabalho que tenha, ou não tenha. Que as melhores lições de vida lhas deu não tanto com o que disse, mas com o que eles o viram fazer sempre.

Por isso, encorajei-o para que volte a sair amanhã de manhã, com a melhor gravata e a camisa passada pela mulher e chegue àquela entrevista de emprego com a cabeça levantada e o olhar limpo. E se a directora de recursos humanos de vinte e cinco anos e com ar de modelo não gostar dele, paciência. O mais provável é não saber o que perde. E se fracassar outra vez, deve continuar a tentar enquanto possa. E quando já não puder mais, embora eu ache que podemos sempre, pelo menos até aí chegou. A esse ponto da estrada. Não há nada de desonroso em alguém que se rende depois de todas as batalhas disputadas, orgulhosamente e diante de todos. Não se perde a honra quando se disparou o último cartucho, nem sequer num País como este, onde ninguém fala no Sr. Idálio nem nos muitos outros que lutam sozinhos sem ajuda nem memória.

Rui Bento

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